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Uma viagem de carro com partida de Taubaté no interior de São Paulo, rumo ao fim do mundo. São 11 mil quilômetros (ida e volta) e por isso a pré-viagem com planejamento é essencial.

Revisão completa no carro, materiais e kit primeiros socorros para o carro e o viajante, seguro viagem, carta verde (autorização internacional, com seguro a terceiros) e um cálculo de combustível confiável, afinal, rodar no meio do deserto é risco de ficar sem combustível.

Embarquei nesta aventura de 23 dias e aqui descreverei um pouco do diário de bordo para você, leitor do Blog Brasileiros Por ai!

Primeiro dia

Dia de aventureiro começa cedo, por isso peguei estrada 4h50 da manhã pois havia pela frente 700km (e 9h de viagem) até a primeira parada, seguindo rumo a região Sul do Brasil: Joinville-SC.

A viagem foi em janeiro, época de chuvas no Brasil e por isso toda a viagem no caminho brasileiro foi de chuva torrencial e tempo cinza.

Pista sinuosa e intensa, pois é uma rota bem utilizada por caminhões e assim peguei um trânsito bem lento passando pelas praias de Santa Catarina.

A chuva realmente não deu trégua até a divisa do estado. Ao chegar no RS, já em Torres a água cessou…aí sim a viagem rendeu um pouco mais.

Com mais de 1000 km rodados entre paradas para abastecer, enfim a chegada em Santana do Livramento, fronteira entre Brasil e Uruguai, às 22h.

Dormi em Santana pois deveria registrar entrada no Uruguai junto a aduana. Documentos obrigatórios: RG (original, nada de CNH) ou passaporte, Documento do veículo e carta verde com nome do condutor presente.

Dali o próximo destino era Bahia Blanca, na província (Estado) de Buenos Aires.

Com cerca de 800 km rodados, só parando para comer e abastecer, segui com afinco para a cidade Bahia Blanca.

O dia inteiro dentro do carro e uma paisagem magnífica, a viagem aconteceu entre arbustos, plantações e campos de girassóis…enfim: Bahia Blanca, 1h da manhã. Sem reserva prévia, achei um Apart Hotel (Rio Oja) novinho e fantástico!

Agora é dormir para seguir à Puerto Madryn.

Por toda a estrada argentina é possível encontrar bandeirolas vermelhas e uma imagem, o Gauchito Gil. São várias as lendas que circundam El Gauchito Gil.

Para alguns, El Gauchito Gil era uma espécie de “Robin Hood”, um justiceiro. Para outros, era um mercenário que pensava apenas nos tratos de seu interesse. Independente da crença ou qual das versões é a verdadeira, o fato é que por toda a Argentina são montados pequenos santuários em homenagem a este personagem.

As homenagens a este “santo” geralmente estão em locais de grande circulação, por isso a estrada e reza a lenda que aquele que não saudar El Gauchito, nem ao menos com o toque da buzina, deixa de receber sua proteção ao longo da viagem.

Próximo objetivo:  Puerto Madryn, na província de Chubut, mas antes uma parada para conhecer o salar Gualicho, um tapete branco de sal considerado terceiro maior do mundo, com 35 quilômetros de extensão e 18 km de largura. Belíssima experiência fotográfica! Vale a pena a parada!

Mais 7 horas depois, enfim Puerto Madryn. Encontrei um hostel básico, o Marinata, e lá fiquei por 2 noites.

Puerto Madryn é parada obrigatória para avistar pinguins, leões marinhos e outros bichinhos que só conhecemos por zoo ou televisão. Madryn é pura natureza e encantamento.

Peninsula Valdez: Cheguei a Puerto Madryn rumo a Península Valdéz, lar de pinguins, lobos-marinhos, elefantes-marinhos, guanacos, orcas e outras várias espécies de animais. Da cidade, estava a uma distância de 200km de estrada de terra, mas ver esses animais vivendo em um ambiente selvagem e de privilegiada beleza natural é uma experiência inesquecível,

Punta Tombo: É uma pinguinera única e realmente impressionante. O parque é muito bem estruturado e preparado para dar preferência aos seus moradores, os pinguins de Magalhães. Eles saem do mar, atravessam a faixa de areia e fazem ninhos nas colinas próximas e embaixo dos arbustos. É um contato muito próximo ver pinguins a menos de um metro de distância, com filhotes trocando a plumagem e sendo alimentados. No meio da tarde, parti rumo a Caleta Olivia, rodando quase 800km. Houve um leve problema de abastecimento de combustível nessa região, que gerou filas e alguns postos sem gasolina, mas nada que atrasasse a viagem. Dia seguinte era dia todo na estrada, por isso garantir o tanque cheio era primordial. Destino da vez: Rio Gallegos, 800km de distância, última parada antes de Ushuaia.

Tierra del Fuego: Teoricamente, neste dia rodaria poucos quilômetros, mas tinha que passar por 4 Aduanas. Saída da Argentina, entrada no Chile, saída do Chile e entrada na Argentina. E isso podia demorar bastante, já que além do turista também deve registrar o veículo.

Prepare-se para esperar e ter pouca informação consistente: Quais passos seguir? Quais fichas preencher, Qual fila pegar primeiro? Nesta brincadeira, perdi 3 horas.

Os passos na aduana são: registro do Viajante, Registro do carro com carta verde e Inspeção Sanitária. Não pode passar com alimentos de origem animal ou vegetal, afinal estamos mudando de país. São bem rigorosos quanto a isso.

A parada de hoje foi logo na estrada em um lago dentro de um vulcão inativo…Lindo!! Revigorante!

Enfim a balsa para a Tierra del Fuego (146 pesos argentinos por carro) e atravessar o Estreito de Magalhães. Algo que é impossível não reparar nesses arredores é a força do vento. A partir dalí só ficaria mais intenso.

Lugar para comer? Abastecer? nenhum…coma bem antes ou um cachorro quente na balsa…depois só na fronteira!

A parte da estrada que fica no Chile é só de ripio e rodei quase 3 horas nela.

A meta era chegar ao Ushuaia (se pronuncia Usuaia) no mesmo dia, mas a polícia não recomendou fazer hoje, pois já eram 19h30 e ainda faltavam 4 horas para o destino final.

Segundo eles, a paisagem é exuberante, mas a estrada possui uns trechos sinuosos e sem posto de gasolina e nem hotel. Seria seguro parar em Rio Grande!

Fim do mundo

Muito bem!

Estrada em boas condições e paisagem de encher os olhos. É impressionante como em questão de segundos a paisagem muda. Agora, a vegetação não é tão rasteira e começam a aparecer as árvores-símbolo do Ushuaia (A copa é de um lado só devido ao vento).

Quase chegando ao Ushuaia, a estrada tem uns buracos razoáveis e trechos mínimos de ripio. Por isso recomendo fazer este percurso com luz do dia.

Bom, enfim no Fim do Mundo, onde ficarei 2 dias. E quem disse que tem hotel disponível?

Os fueguinos (habitantes da Terra do Fogo) me desejava sorte quando perguntava sobre vagas, alta temporada, janeiro. Deixi na sorte, sem reserva prévia pois não sabia em que cidade pararia para descansar.

Enfim, consegui uma cabaña super aconchegantes e completa, com vista panorâmica para o Canal Beagle!!

Depois do susto, hora de passear pela cidade, andar no centro, comprar artesanato e fazer compras no mercado para o jantar. Fiz o jantar que acompanhava um vinho tinto para esquentar, pois mesmo sendo verão, estava 6 graus, mas é tanto vento que parece estar -10 graus!

USHUAIA – O DIA MAIS LONGO

Ushuaia definitivamente é uma cidade especial. O dia amanhece as 4h30 e o sol só vai se por perto das 23h. Mesmo assim o céu ainda fica com um crepúsculo e uma claridade que dá a impressão de que o dia vai amanhecer a qualquer momento.

O dia foi mais tranquilo, no Parque Nacional da Terra do Fogo, onde caminhei, vi uma represa feita por castores, cheguei ao final da ruta 3 (após 3079 km rodados somente nela) e pude admirar a natureza local: Picos nevados, lagos de água cristalina e animais selvagens convivendo em paz com os poucos humanos que resolvem acampar por lá.

Amanhã é dia de dizer adeus ao “fim do mundo”.

Acordei cedo neste último dia em Ushuaia. Como esse era o ponto mais ao sul que iria chegar, só me restou ir rumo ao norte. Antes de partir conheci o Cerro Martial, uma montanha com gelo em seu topo, mesmo no verão. Subi de teleférico até um parte e segui a pé até as partes geladas.

De lá de cima pude admirar toda a cidade e me despedir do fim do mundo.

E enfrentei a inesperada fila na balsa, o que atrasou a viagem e me fez chegar tarde da noite no continente. Passei em algumas hospedagens e todas estavam lotadas. Só restou parar em um posto, descansar e esperar o dia nascer para seguir viagem.

Enfim, toda aventura tem que ter um “perrengue”, senão não seria uma aventura.

PUERTO NATALES: Ah, a bela Puerto Natales, cidade turística com muitos atrativos. Logo cedo fui conhecer a Cueva del Milodón, uma caverna gigantesca que servia de abrigo para uma extinta preguiça gigante. A caverna tem vista para um lago de água esmeralda e montanhas deslumbrantes.

Depois de instalada em um confortável hostel deixei as mochilas no quarto e saí rumo ao incrível parque Torres del Paine.

Não é a tôa que foi eleito uma das 7 maravilhas naturais do mundo. Do caminho pode-se observar a grandiosidade desse monumento natural de granito. A paisagem conta ainda com vários lagos de água esmeralda, uma geleira e muito verde.

Infelizmente devido a um incêndio causado por turistas, boa parte da vegetação se foi. Chegando lá e pude ver de longe faixas negras nos morros, onde antes havia o verde.

Mesmo assim, era um lugar especial, onde a beleza da paisagem lhe diz que não foi feita por obra do acaso.

TORRES DEL PAINE: Numa viagem dessas todo tempo é pouco. São muitos os lugares para conhecer e curtir. Com boa parte do Parque Torres del Paine fechado devido ao incêndio e apenas um dia para fazer as trilhas ainda abertas, resolvi fazer uma das trilhas mais difíceis: a perna do “W” que leva até as Torres del Paine. Lanches e frutas na mochila e garrafas de água (além das câmeras, é claro) foi tudo o que carreguei pelos 9km que conduzem até uma das 7 maravilhas naturais do mundo. Foram 5h em uma trilha que começou com uma subida levemente inclinada, em um baita descampado e debaixo de muito sol. Em seguida, um passeio por um bosque sensacional, com árvores imensas. Por fim, o que é considerado a pior parte: a subida final que de tantas pedras é quase uma escada. O vento é bastante forte, por isso é importante ir com roupas que protejam da terra e pequenas pedras que são atiradas nas rajadas de vento mais fortes. Por todo o caminho existem pequenos riachos para matar a sede. A subida foi bastante árdua, mas vale mais que a pena. Não são apenas as torres que compõem o visual do local, a elas soma-se um lago de cor indescritível. Sem palavras! A única expressão de quem chega ao mirador é “uau!”.
Depois de um bom tempo enchendo os olhos com tão bela paisagem, caminhei novamente 9km para voltar.

EL CALAFATE: Él Calafate foi a próxima parada. Deixei o Chile para trás ainda lembrando da fantástica visão de Torres del Paine. Troquei os pesos chilenos restantes por pesos argentinos e segui em direção dos glaciares.

A cidade é muito agradável e receptiva. Tem um clima que lembra Campos do Jordão (e preços também) e como é alta temporada tive dificuldade de conseguir um hotel. Uma das atrações daqui é o sorvete de calafate, uma fruta que dá nome à cidade e lembra a nossa amora. Acordei cedo e segui para a grande atração da cidade, o glaciar Perito Moreno.

O passeio começa com lagos que variam de um verde esmeralda a um azul tão claro que enche os olhos. Em seguida entrei nos bosques do parque “Los Glaciares” e já ao longe avistei a impressionante massa de gelo que tem quilômetros de extensão. É um paredão de cerca de 70 metros de altura que estala enfurecidamente até que um pedaço de gelo se solta e despenca na água do lago, seguida de um estrondo. É uma imagem que fica marcada na memória e que sei que faz parte de um lugar único no mundo.

VOLTANDO: Saí cedo de Él Calafate já rumo a Buenos Aires. O dia de hoje se resumiu a 1000 quilômetros de estrada até Comodoro Rivadavia. A paisagem desértica dominou a maior parte da viagem, até a litorânea Caleta Olívia. Daí até Comodoro Rivadavia é aproveitar para  admirar o mar e as falésias da região.

Comodoro Rivadavia ficou para trás e segui rumo a Viedma, rodando mais de 900 quilômetros. É claramente perceptível que os dias vão ficando mais curtos a medida que rumo para o norte. Em Ushuaia anoitecia as 23h15, em Calafate as 22h30, em Comodoro Rivadavia lá pelas 22h00 e em Viedma um pouco antes disso.

BUENOS AIRES: Entrei na “ruta” 3 rumo a Buenos Aires. Pouco a pouco a vegetação vai mudando e passando de rasteira para arbustos e mais ao norte, grandes árvores. As pastagens de ovelhas dão lugar a bovinos e plantações de soja e girassol.

As cidades vão ficando mais próximas umas das outras até entrar na área urbana da grande Buenos Aires.

Em vez de pegar a entrada principal da cidade, entrei pela “ruta” 3 e acabei cruzando a cidade inteira até o bairro de San Telmo.

O subúrbio de Buenos Aires é bem parecido com o de nossas grandes cidades.

Acordei mais tarde para renovar as baterias e sair por Buenos Aires. Fui até “La Boca” comprar umas lembranças e almoçar um belo churrasco no “Siga la Vaca”, onde fiquei umas 3 horas saboreando as carnes argentinas.

Após isso, uma caminhada por “Puerto Madero”, na “Puente de la Mujer” euma volta rápida pela Av. 9 de Julho em tempo de ver o obelisco iluminado na noite da cidade.

Dia seguinte, saí rumo a “Recoleta”, o famoso cemitério onde estão enterrados grandes nomes da história da Argentina, sendo o mais visitado o de Evita Perón. São verdadeiros mausoléus cheios de luxo, mármore e granito.

Dei uma passada rápida no “Buquebus” para comprar a passagem para a travessia do Rio da Prata, rumo ao Uruguai.

De almoço umas empanadas muito boas , mais caminhadas e uma Quilmes para despedir-me da “hermana” Argentina.

Arrumei o carro com as malas e tomei a balsa rumo ao Uruguai, mais precisamente Colônia del Sacramento.

Mudando de moeda novamente!

Foto: Raquel Marques

Colônia é uma cidade fundada por portugueses e que posteriormente foi tomada pelos espanhóis. Seu centro histórico é realmente muito bonito, com ruínas das muralhas, ruas de paralelepípedos e praças arborizadas.

São comuns na cidade azulejos, doces, queijos e um lugar mais lindo que o outro para desfrutar de tudo isso.

Realmente vale a pena passar um dia andando por aqui.

Dali a próxima parada já era no Brasil.

De colônia para Pelotas – RS, são 725 km. Naquela altura do campeonato estava moleza dirigir 700 km, rs. Fui pela estrada para Montevidéo, passandopela orla de perto da hora do almoço e como era domingo havia pouco trânsito.

Segui rumo ao Chuí, chegando no meio da tarde e a pedida era se esbaldar nos “free-shops” da cidade. A cidade só tem free shops, enormes, por todo lado.

Depois das compras parada obrigatória na aduana uruguaia e a brasileira. O trecho brasileiro é sempre muito complicado pelas obras, caminhões e nesta época, a chuva. Chuva esta que não vimos uma gota em Chile, Argentina e Uruguai.

O próximo destino era Joinvile, distante 900 quilômetros de Pelotas, passando pelos pampas gaúchos e parar para almoçar em Porto Alegre. Segui pela BR passando pelos campos de geração de energia eólica de Osório com seus enormes moinhos e entrei em Santa Catarina. A partir daí a BR começa a cortar as cidades e o trânsito começa a ficar mais complicado.

Por todo o caminho vimos vários carros com placas argentinas vindo passar as férias nas praias do Brasil.

Cheguei em Joinvile no começo da noite, cansada, só queria banho, comer e dormir. Volta de viagem é sempre cansativa, dirigindo isso tudo então, é de se desejar uma cama.
Dia seguinte terminava a aventura: Joinville – Taubaté.

Dicas –

– A gasolina mais barata do percurso foi na Argentina, depois Chile e depois Uruguai.

– Faça o cálculo de câmbio corretamente, pois ficar atravessando fronteiras pode fazer você esquecer alguma moeda e dependendo do horário e da cidade não tem casa de câmbio.

– Reservar hotel antes, principalmente em janeiro na temporada, é o ideal, mas pense que pode travar sua viagem

– A documentação do veículo em dia e a carta verde é fundamental. O tempo todo foram pedidos estes documentos. A polícia vê de longe que o carro é brasileiro e ser parado por eles vira rotina.

Uma viagem que sem dúvida faria novamente!

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